O Brasil deixou de fazer parte dos países com “Índice de Prevalência de Subnutrição” acima de 2,5% da população, segundo o Relatório “Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI 2025)”, da FAO/ONU, conhecido popularmente como o Mapa da Fome. Esta parece uma excelente notícia, mas é necessário olhar mais de perto e considerar que a informação expressa apenas um indicador entre outros extremamente relevantes levantados pelo Relatório SOFI. Uma análise mais profunda dos dados evita chegarmos a conclusões simplistas e demonstra como ainda estamos longe de acabar com a insegurança alimentar no país.
Dados do Relatório SOFI 2025
- 23,7% da população brasileira, 50,2 milhões de pessoas, não tem condições de pagar por uma alimentação saudável (2024);
- 3,4% da população brasileira, 7 milhões de pessoas, vive em Insegurança Alimentar Grave (levantamento entre 2022 a 2024);
- 13,5% da população brasileira, 28,7 milhões de pessoas, vive em Insegurança Alimentar Moderada ou Grave (levantamento entre 2022 a 2024);
- 28,1% da população, 45,7 milhões de brasileiros, estão obesos. A obesidade não significa fartura, mas incapacidade de obter alimentos saudáveis (mais caros que os ultraprocessados), falta de exercício físico e estilo de vida inadequados.
Ou seja, temos 28,7 milhões de pessoas vivendo hoje no Brasil em Insegurança Alimentar Moderada ou Grave. “Moderada”, quando as pessoas têm que comprar ou comer menos, mudando seus hábitos alimentares; “grave”, quando as pessoas não têm comida nem dinheiro para comprar, ficando um dia ou mais sem comer. São números ainda inadmissíveis, que retratam os níveis de gravidade da fome no país, com impacto sobre a saúde das pessoas, baixo rendimento escolar e sofrimento psicológico. Bom mesmo que o Brasil ficou de fora da lista de países com índice de “Prevalência de Subnutrição” acima de 2,5% da população. Mas não podemos com isso concluir que a fome acabou.
O conjunto de dados da pesquisa ainda reflete um Brasil que há muitos anos lutamos para mudar: um país que é um dos mais desiguais do mundo e um dos que mais desperdiçam suas riquezas, no qual 6,8% da população (14,7 milhões de pessoas) ainda vive em extrema pobreza (FGV Social). Um país em que 5,4% da população com 15 anos ou mais (9,3 milhões de pessoas) ainda é vítima do analfabetismo (IBGE).
Erradicar a fome exige um olhar mais profundo, mais abrangente, que amplie o combate à desigualdade, que permita o acesso à educação de qualidade, entre outras iniciativas que devem mobilizar o poder público e toda a sociedade civil em uma batalha que está longe de ser vencida. Para tanto precisamos ter um sistema político muito mais eficiente, sem desperdício de recursos públicos, investindo fortemente em saúde e em educação de qualidade, principalmente na educação básica. O que acaba com a fome são as oportunidades de emprego e o desenvolvimento econômico.
Por Luciana Quintão, fundadora e presidente da ONG Banco de Alimentos
Relatório SOFI 2025 (FAO): https://www.fao.org/publications/sofi
Dados da FGV Social: https://fgv.br/social
IBGE – Alfabetização: https://www.ibge.gov.br
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