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Fome: o maior sinal de desinteligĂȘncia

31/03/2023

Sabemos que hĂĄ muitas fomes e carĂȘncias. No entanto, a fome de comida, a mais conhecida de todas, constitui-se em um erro muito grande por nĂŁo mirarmos o alvo social.

Sempre que pensamos em fome, o que vem Ă  mente no primeiro momento Ă© a falta de comida, o medo primordial do ser humano. A alimentação Ă© uma necessidade literalmente vital. Esse temor ancestral hoje Ă© uma violĂȘncia em grande medida desnecessĂĄria, evitĂĄvel, que subjuga, refreia existĂȘncias e impede o desenvolvimento fĂ­sico e mental de um ser humano.

O maior rei ou rainha, intelectual, magnata, seja quem for, sem comida, serĂĄ apenas um ser humano indefeso e vulnerĂĄvel, como qualquer outro nessa condição. Desprovidos dela, todos morrerĂ­amos. NĂŁo bastasse esta constatação, sabemos que o alimento Ă© remĂ©dio primĂĄrio e natural para nos manter sadios. É dele que vem a vitalidade. HipĂłcrates, considerado o Pai da Medicina, cerca de quatrocentos anos antes de Cristo, jĂĄ dizia: “que o seu remĂ©dio seja o seu alimento; e que seu alimento seja seu medicamento”.

O alimento Ă© tĂŁo primordial para nossa existĂȘncia que tem interface com absolutamente tudo o que nos diz respeito, estando no cerne do desenvolvimento da prĂłpria civilização e das relaçÔes sociais. Ele tem relação com a polĂ­tica, com a economia, com a nossa cultura geral. NĂŁo por acaso, a divisĂŁo do pĂŁo, ou o cultivo da vida, se faz presente na maioria das religiĂ”es existentes. Impedir que pessoas tenham acesso ao alimento, portanto, Ă© privĂĄ-las de seu direito sagrado Ă  vida, uma “tĂ©cnica” cruel utilizada arbitrariamente por muitos tiranos para dominar um povo em vĂĄrios momentos de nossa histĂłria. Nesse sentido, podemos dizer que a fome tem um viĂ©s polĂ­tico muito forte, pois muitas vezes, nĂŁo falta alimento, o que falta Ă© o acesso ao mesmo, como no caso brasileiro. Hoje, existem milhĂ”es de brasileiros que vivem em condiçÔes de insegurança alimentar. Dessa forma, Ă© correto dizer que comer Ă© um ato polĂ­tico e alimentar Ă© um ato de consciĂȘncia social e de amor. Na natureza, a arquitetura da existĂȘncia jĂĄ prevĂȘ que toda a mĂŁe seja capaz de produzir o alimento para seu filho, garantindo-lhe os nutrientes necessĂĄrios, imprescindĂ­veis, para existir e se desenvolver.

A fome é um sofrimento social evitåvel, a qual ocasiona uma série de alteraçÔes no funcionamento normal do organismo de quem a sofre, desde a danificação do bom desempenho de todos os órgãos do ser humano até a baixa imunidade, levando-o a contrair doenças e desenvolver graves danos ao sistema nervoso: perda de neurÎnios e mudanças psicológicas e psíquicas, influenciando no nível de felicidade ou dor do indivíduo. Não existe algo mais perturbador do que passar fome e mais triste do que ver os seus filhos nessa situação.

Lutar pela democratização do alimento é defender o direito universal de cada ser humano à vida, obrigação de qualquer sociedade ou estado de direito na face da Terra.

Texto baseado no livro InteligĂȘncia Social – a perspectiva de um mundo sem fome(s), escrito por Luciana C. QuintĂŁo.

Equipe IS

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